Suposta união entre PCC, TCP e 2 facções de MG liga alerta para ‘guerra’ contra CV na Grande BH
Um comunicado que circula nas redes sociais revela que quatro facções criminosas — Primeiro Comando da Capital (PCC), Terceiro Comando Puro (TCP), Família AR (Anjo Rebelde) e Tropa do Douglas (TDD) — anunciaram uma suposta união “estratégica” em Minas Gerais. No texto, que circula sem nenhum tipo de assinatura, os grupos afirmam ter firmado um pacto de “paz, justiça, união e liberdade” e declaram o fim das divisões internas. O alerta é direcionado a pessoas que atuam dentro e fora dos territórios das organizações, “na rua ou na cadeia”.
“Com o propósito de fortalecer ações conjuntas em prol do avanço e da melhoria contínua de ambas as organizações, temos ainda o objetivo comum de garantir a paz entre todos os integrantes e aliados de cada grupo, respeitando suas autonomias ideológicas e operacionais dentro do nosso estado. A era da divisão terminou! Agora falamos com uma só voz, agimos com um só propósito e defendemos um só ideal: a força da união é benéfica a todos”, diz trecho do comunicado, que teria sido publicado nessa quarta-feira (22/10).
Apesar de o suposto comunicado ser vendido como algo novo, pelo menos três das facções já têm ligação entre elas — PCC, TCP e Anjo Rebelde. O TCP, inclusive, é visto já no meio policial, conforme fontes ligadas às polícias, como uma extensão da facção paulista na capital mineira. A “novidade” seria a chegada do TDD no grupo.
Especialistas em segurança ouvidos pela reportagem ponderam que é necessário entender, primeiro, se o comunicado é verdadeiro. Robson Sávio Reis Souza, especialista em segurança pública e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que não é comum que facções criminosas publicizem esse tipo de acordo. “Agora, se realmente isso existe, é algo muito preocupante porque significa que haveria, sim, uma articulação entre líderes dessas várias facções. Uma coisa muito interessante é que, nos últimos tempos, o PCC tem evitado disputas territoriais e investido em várias modalidades para ganhar dinheiro, através, inclusive, de atividades acima de qualquer suspeita”, avalia.
Robson Sávio cita novas formas de lavagem de dinheiro usadas pelo PCC fora do mundo do tráfico que vieram à tona nos últimos meses. “Recentemente, vimos ligações do PCC com as fintechs, com a Faria Lima, com postos de combustíveis. Outras formas de lavagem de dinheiro que não passam pela disputa sangrenta e territorial da venda de drogas, mas por outras formas de negócio. Então, me parece, principalmente, que as estratégias do PCC não são estratégias de uma disputa belicosa de territórios, por exemplo, nas periferias das cidades. É claro que, dentro de uma estratégia talvez não belicosa nas periferias, a união de facções pode indicar, na verdade, uma articulação de não provocar disputas territoriais porque isso chama atenção das polícias”, pontua.
Ludmila Ribeiro, professora e integrante do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (CRISP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também ponderou sobre a possibilidade de o comunicado não ser efetivo. Caso seja verdadeiro, a pesquisadora entende que isso revela um movimento de tentativa de reorganização do crime em Minas Gerais. Historicamente, conforme a especialista, o estado sempre foi marcado por uma fragmentação muito grande das facções locais, o que dificultava o estabelecimento de alianças duradouras, conforme estudos. “A menção à ‘união’ pode indicar um esforço de reduzir conflitos internos e aumentar a capacidade de articulação frente à presença de grupos de fora, sobretudo os de dimensão nacional. Em outras palavras, o comunicado parece mais uma sinalização política do que uma comprovação de aliança consolidada”, avaliou.
Na mesma linha do que disse Robson, Ludmila Ribeiro afirmou que o PCC tem enfrentado resistência significativa em Minas, especialmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde há forte presença de facções locais com redes próprias de proteção e influência. Essa suposta “abertura” pode ser lida menos como uma expansão do PCC e mais como um rearranjo estratégico: uma tentativa de reduzir hostilidades e buscar parcerias pragmáticas para manter ou ampliar seus espaços de atuação. Já para as facções menores, segundo Ludmila, uma aliança com o PCC pode representar uma forma de ganhar legitimidade e acesso a mercados ilícitos mais amplos, mas isso significa abrir mão da autonomia local, como entregar as armas e se submeter ao tribunal do crime (estrutura informal de punição de membros), o que não é o padrão em Minas Gerais.
Na prática, caso a união se confirme, Ludmila entende que o impacto pode se dar em dois níveis. No curto prazo, poderá se observar uma redução de confrontos violentos entre os próprios grupos, gerando a falsa sensação de “paz” nas periferias. “Contudo, os relatos que temos é de muitas mortes dentro das prisões como recentemente noticiado sobre a Nelson Hungria. Mas, a médio prazo, uma articulação mais coesa entre facções tende a aumentar o poder de negociação e o controle territorial desses grupos, o que pode ter como efeito redução dos homicídios também dentro do sistema prisional. Ou seja, é um movimento que, se real, pode trazer estabilidade momentânea, mas fortalecer o crime organizado no longo prazo”, projetou.
Recado indireto de guerra
Se levarmos em conta um antigo provérbio utilizado em guerras de que o “inimigo do meu inimigo é meu amigo”, a união entre as quatro facções pode ser interpretada como uma coalizão contra o Comando Vermelho (CV), principal rival do PCC, embora os facções tenham vivido dois meses de trégua no começo do ano em todo país. Após a ruptura entre as facções, anunciada em comunicados das organizações em maio deste ano, crimes envolvendo a disputa entre os grupos rivais estouraram em Belo Horizonte.
Ludmila Ribeiro avalia que a nova união, se confirmada, pode gerar uma escalada no confronto com o Comando Vermelho. A especialista se baseia em pesquisas que “indicam um avanço sistemático do TCP e CV na Região Metropolitana de Belo Horizonte”. “O fato de o Comando Vermelho estar ausente e de o comunicado enfatizar que a era da divisão terminou pode ser interpretado como uma forma de isolar o CV, transformando-o em inimigo comum. Assim, mais do que uma união geral, o comunicado pode funcionar como uma mensagem política de alinhamento contra o CV — uma tentativa de varrê-lo de determinadas áreas, especialmente aquelas em que sua presença ainda é incipiente”, afirmou.
Já Robson Sávio pontuou que PCC e CV são os “dois grandes nomes” de facções do país e que, muitas vezes, extrapolam o território nacional com contrabando de armas, lavagem de dinheiro, corrupção, entre outros pontos. Sávio também lembra que Minas Gerais é um estado com amplas fronteiras, ao lado do Rio de Janeiro, comandado pelo CV, e de São Paulo, berço do PCC, mas também ao lado do Norte e Nordeste, o que torna o estado um ponto estratégico para essa movimentação. Com isso, um acirramento na guerra entre PCC e CV significaria conquistar situação confortável em Minas Gerais visando o êxito em outras empreitadas criminosas.
O que diz o governo de Minas?
Em nota, o governo de Minas Gerais informou que todas as questões relacionadas a possíveis conexões entre facções criminosas estão sob o monitoramento de Inteligência por parte da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp/MG). Confira o posicionamento na íntegra:
“Por meio do Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública (SEISP), com atuação conjunta da Sejusp/MG, Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), Polícia Penal (PPMG), Ministério Público (MPMG), Tribunal de Justiça (TJMG), Subsecretaria de Atendimento Socioeducativo (Suase), dentre outros órgãos e Instituições, foram recapturados 360 criminosos foragidos da Justiça apenas em 2024. A atuação estratégica com o uso de tecnologias modernas e inteligência integrada também estão resultando em prisões de outros foragidos da justiça, e de lideranças criminosas, em todo o Estado de Minas Gerais, neste ano.
Além disso, a Sejusp/MG implementou rígida política de isolamento de integrantes do crime organizado em unidades prisionais especiais, onde são monitorados e acompanhados com rigor, impedindo novos rituais de associação e enfraquecendo o crescimento de tais grupos no estado. Essas unidades passam por acompanhamento integral do serviço de Inteligência e operações frequentes de buscas e revistas, neutralizando as comunicações entre os diferentes membros.
Vale destacar, ainda, a parceria entre a Sejusp/MG e a PCMG para criação, em 2024, do Grupo Especial de Repressão ao Crime Organizado (GERCO). A unidade é responsável por ações significativas em Minas, como a prisão de integrantes do Comando Vermelho que tinham fugido de unidades prisionais e a desarticulação de lideranças criminosas no estado. Ressaltamos também o Centro Integrado de Inteligência Cibernética (CIBERINT), que atua com o monitoramento de membros de organizações criminosas no ambiente web.
A Metodologia da Integração da Gestão em Segurança Pública (Igesp), desenvolvida pela Sejusp, garante a troca contínua de informações e o fortalecimento do trabalho em equipe, reforçando as ações em áreas classificadas como Zonas Quentes de Criminalidade (ZQC), em diferentes regiões do estado, para o enfrentamento da criminalidade”.
De onde são as facções da suposta nova aliança?
Primeiro Comando da Capital (PCC)
O Primeiro Comando da Capital (PCC) surgiu em 1993, dentro da Casa de Custódia de Taubaté, no interior de São Paulo, criado por detentos que buscavam se proteger da violência e das condições precárias do sistema prisional. Com o tempo, a facção expandiu sua atuação, passando a controlar o tráfico de drogas, o transporte de armas e a lavagem de dinheiro dentro e fora dos presídios. Em Minas Gerais, a presença do PCC começou a ser percebida nos anos 2000, quando integrantes passaram a disputar território com facções locais e a recrutar presos no sistema carcerário mineiro, ampliando sua influência sobre o crime organizado no estado.
Terceiro Comando Puro (TCP)
O Terceiro Comando Puro (TCP), facção evangélica do Cabana do Pai Tomás surgiu no Rio de Janeiro no início dos anos 2000, após uma dissidência do antigo Terceiro Comando (TC), uma facção ativa durante a década de 1990. Naquela época, o TC mantinha uma aliança com a facção Amigos dos Amigos (ADA), parceria que durou até 2002. Nesse ano, uma rebelião liderada por Fernandinho Beira-Mar, do Comando Vermelho (CV), resultou na morte de líderes do TC e na sobrevivência de um membro da ADA. A suspeita de traição foi o que motivou a adição do “P” de “Puro” ao nome, indicando que a facção passaria a contar apenas com criminosos “sem mistura”, ou seja, que só prestassem serviços ao TCP.
O TCP teria chegado à capital mineira em 2020, estabelecendo território na comunidade do Cabana do Pai Tomás, na região Oeste de Belo Horizonte. Nos últimos anos, a facção vem expandindo a área de comando para outros aglomerados da capital. O TCP também é conhecido por ser aliado do PCC e inimigo do Comando Vermelho (CV).
Família A-R:
Família A-R (Anjo Rebelde) teria surgido a partir da liderança de Dalmo, conhecido como “O Rebelde”, um dos criminosos mais procurados de Minas Gerais. Apontado como integrante e liderança ligada ao PCC, ele teria fundado sua própria organização criminosa, que nasceu em Sarzedo e se expandiu para diversos pontos de Belo Horizonte e da Região Metropolitana.
TDD
Pouco conhecida, a TDD seria abreviação de Tropa do Douglas, em referência a Douglas Azevedo, conhecido como “Mancha”. Foragido da Justiça, ele estaria na Bolívia após ter “driblado” as forças policiais colocando uma tornozeleira eletrônica em um macaco de pelúcia, em Escarpas do Lago, para despistar as autoridades.
