Avanço de facções em MG está entre motivos de salto de 1330% nas apreensões de supermaconha

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O perfil de consumo de drogas em Minas Gerais está mudando, e a existência de uma organização robusta por trás da compra e venda de quilos de entorpecentes em rotas interestaduais e internacionais do tráfico evidencia o avanço de facções nacionais no estado. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Minas Gerais apreendeu, em pouco mais de nove meses deste ano, cerca de 24% mais drogas — entre cocaína, crack, ecstasy e outros entorpecentes — do que em todo o ano de 2024: 29.468 quilos, contra 23.860 quilos no ano passado. Mas um “novo favorito” tem chamado atenção: o skunk, uma versão da maconha que pode conter até 30% mais THC (o composto psicoativo da planta) e que chega ao estado principalmente pelas rotas do tráfico vindas do Paraguai e da Bolívia. As apreensões de skunk saltaram 1.331% desde o ano passado — 558 quilos desde janeiro, contra 39 quilos em todo 2024. A PRF destaca o fortalecimento do setor de inteligência, integrado em todo o país, como fator determinante para o aumento das apreensões, e especialistas em segurança pública reforçam que esse monitoramento é essencial justamente para desvendar as rotas de um tráfico que deixou de ser apenas regional.

“Por trás do crime organizado, existe uma estrutura econômica. As grandes facções têm estratégias para identificar o que está gerando lucro, e as drogas vão se diversificando, como o skunk, cuja entrada ocorre principalmente por países latino-americanos, como Bolívia e Paraguai. As grandes facções percebem esse movimento, e o tráfico funciona de forma extremamente interligada”, pondera o especialista em segurança pública Jorge Tassi. Ele analisa que o skunk está relacionado a um perfil mais liberal de consumo de drogas, que tem se intensificado nos últimos anos. A PRF afirma que as drogas apreendidas vieram principalmente do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, estados que fazem fronteira com o Paraguai e a Bolívia.

Nesse caso, as rotas interestaduais e internacionais do tráfico são orquestradas por organizações nacionais, não apenas mineiras. “Se a droga está aqui, está em todo o Brasil. São organizações criminosas que já são supranacionais, como o PCC (Primeiro Comando da Capital), considerado um dos maiores da América Latina em termos de organização, com atuação não só nos estados, mas em diversos países”, acrescenta.

De acordo com o especialista em segurança pública Arnaldo Conde, as apreensões de drogas em rodovias revelam um esquema nivelado. Os flagrantes de carregamento de drogas, segundo ele, representam a ponta do mercado, indicando o cenário de consumo. Por trás disso, há uma estratégia de tráfico voltada ao rastreamento de dinheiro, envolvendo milhões de reais. Em seguida, é possível mapear a atuação das grandes facções criminosas. “Em uma terceira etapa — que já se sabe que acontece, mas ainda não temos mapeamento objetivo — está a dinâmica dessas quadrilhas brasileiras, como o CV (Comando Vermelho) e o PCC, que hoje operam como verdadeiras organizações terroristas internacionais. O skunk tem um perfil diferente de droga, e é viável supor que essas facções facilitem sua circulação”, analisa.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) atribui o aumento das apreensões de drogas a um trabalho mais eficiente e coordenado em nível nacional, que integra a atuação operacional à inteligência policial. Entre as melhorias citadas estão o fortalecimento do serviço de inteligência, treinamentos constantes, além de investimentos em canis e grupos táticos especializados no combate ao crime. Segundo a corporação, o trabalho de inteligência permite a troca de informações entre estados e o monitoramento em tempo real das rodovias do país, nacionalizando o combate ao tráfico de drogas. Nesse contexto, Minas Gerais ocupa uma posição geográfica estratégica, servindo não apenas como destino final, mas também como rota de passagem de cargas de entorpecentes.

“As polícias estão trabalhando mais integradas, com banco de dados mais eficientes, e de uma forma mais estratégica, isso aumenta o número de flagrantes. Mas esse tráfico pulverizado não vai acabar, o objetivo agora não é mais pessoas, é o rastreamento do dinheiro”, pondera o especialista Arnaldo Conde. 

‘Estão usando armas do Rio de Janeiro’, diz policial, sob anonimato 

Um sargento da Polícia Militar (PM) com mais de 18 anos de carreira em Minas Gerais relatou, sob condição de anonimato, o fortalecimento das facções no estado nos últimos anos. “Estão utilizando armas vindas do Rio de Janeiro, e as guerras por território estão cada vez mais intensas. A guerra entre o CV e o TCP (Terceiro Comando Puro) está declarada”, disse. Segundo ele, o aumento da violência é evidente nos registros de assassinatos com o uso de fuzis e na pressão sobre pequenas facções para que se aliem às maiores. “Nosso principal desafio é fazer com que o governo reconheça a gravidade da situação e nos dê o devido amparo. O estado sabe que as facções estão tomando conta do estado, mas não admite. E, assim, seguimos nessa situação crítica”.

Desabafa o Sargento

O sargento concorda com a avaliação do especialista Jorge Tassi de que um novo perfil “mais liberal” do consumo de drogas tem se espalhado entre diferentes classes sociais. “O tráfico de drogas está em plena expansão. Há usuários por todos os lados e em todas as classes sociais. Muita gente de áreas nobres tem procurado entorpecentes. Engana-se quem pensa que o problema está restrito às favelas”, relata.

Para outro policial da PMMG, que também terá a identidade preservada, “é notório o aumento da atuação das facções criminosas em Belo Horizonte e em Minas Gerais como um todo”. “O crime em Minas Gerais — e no Brasil de modo geral — está cada vez mais organizado, especialmente no que diz respeito ao tráfico de drogas. Estamos buscando (como corporação) criar novos mecanismos e aprimorar nossas estratégias de enfrentamento ao crime”, conta. 

O governo de Minas Gerais informou que monitora “todas as questões relacionadas a possíveis conexões entre facções criminosas” a partir da inteligência da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp). No ano passado, 360 criminosos foragidos da Justiça — quase um por dia — foram recapturados como resultado da articulação entre a Sejusp, a Polícia Militar, a Polícia Civil, a Polícia Penal, o Ministério Público, o Tribunal de Justiça, a Subsecretaria de Atendimento Socioeducativo e outros órgãos. De acordo com a Sejusp, essas instituições se articulam por meio do Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública (SEISP).

Ministério da Justiça e Segurança Pública quer endurecer ações contra facções

O governo federal lançou, nessa quarta-feira (22/10), o projeto Antifacção, que altera alguns entendimentos da legislação sobre organização criminosa e endurece as medidas de combate. Entre as principais ações previstas estão a criação de um banco de dados com informações detalhadas sobre membros e líderes de facções criminosas, a previsão legal para infiltração de agentes nos grupos e o aumento da gravidade de crimes enquadrados nesse contexto. O projeto Antifacção ainda precisará passar pelo Congresso, e a expectativa é que seja encaminhado rapidamente para análise dos deputados e, posteriormente, dos senadores.

Fonte: O Tempo