Desde a proibição de cigarros em cadeias, mais de 1.000 pacotes de fumo foram apreendidos em MG

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Em pouco mais de quatro meses desde a proibição da entrada de cigarros em todas as unidades prisionais do Estado, as forças de segurança têm percebido o aumento crescente de tentativas de entrada de um novo material ilícito nas cadeias: o fumo. Em um fim de semana no ínicio do ano, seis mulheres foram presas com fumo e drogas durante vistoria de entrada no presídio Professor Jacy de Assis, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. 

Dados divulgados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) apontam que 1.016 pacotes de fumo foram apreendidos nas unidades prisionais desde 1º de setembro do ano passado, o primeiro dia após a proibição dos cigarros, até a primeira semana de janeiro. Os números representam, em média, oito apreensões por dia. Não há uma padronização de peso por pacotes, uma vez que o dado divulgado pela secretaria diz respeito aos volumes apreendidos. 

Segundo a pasta de segurança do Estado, “é importante ressaltar que aproximadamente 90% das apreensões de fumo são resultados de interceptação de arremessos feitos da parte externa das unidades prisionais por indivíduos”. No mesmo período, desde setembro, foram apreendidos 16 maços de cigarros e 110 unidades de cigarros de palha. 

O homem acusado de matar o sargento Roger Dias em janeiro do ano passado relatou a abstinência do cigarro em laudo psiquiátrico. Ele relatou que fumava dois maços por dia, mas com a proibição, teve que parar. “Agora que na prisão proibiu, eu tô sentindo falta sim”, relatou.

Para além dos dados, o presidente do Sindicato dos Policiais Penais do Estado de Minas Gerais (Sindppen-MG), Jean Otoni, também percebe o aumento nas apreensões de fumo no dia a dia. “Sim, houve um aumento significativo nas tentativas de entrada de fumo e cigarros após a proibição. Essa mudança era esperada, pois sabemos que o cigarro sempre foi um dos itens mais consumidos dentro das unidades prisionais e, com a restrição, tornou-se objeto de contrabando e tentativas ilícitas”, declarou. Conforme o presidente, o aumento das apreensões é perceptível. “Antes da proibição, o fumo não era um item frequentemente apreendido porque era permitido a entrada de cigarros regulamentado. Agora, com a restrição, ele migrou para o ‘mercado ilegal’ e, infelizmente, passou a ser mais associado a práticas ilícitas, como essas tentativas de introdução por visitantes”, pontuou.

Jean Otoni afirmou que os materiais mais apreendidos continuam sendo drogas ilícitas, como maconha, e as drogas K, além de aparelhos celulares, chips e carregadores. O fumo, após a proibição, também passou a figurar entre os itens encontrados, especialmente em estratégias de ocultação em partes íntimas ou misturado a outros objetos. Essa prática, segundo Otoni, evidencia a importância do trabalho preventivo e das revistas realizadas pelos policiais penais.

O Sindppen não tem percebido rebeliões em razão da proibição do cigarro. Jean Otoni diz que o sistema tem demonstrado adaptabilidade, e que isso é reflexo do trabalho comprometido dos policiais penais. “Sabemos que mudanças como essa geram insatisfação inicial, mas também estamos observando resultados positivos, como a redução de problemas relacionados à saúde de internos e servidores. O Sindppen-MG continuará acompanhando os impactos dessa medida e oferecendo suporte aos policiais penais, que desempenham um papel fundamental na manutenção da ordem e da segurança dentro das unidades prisionais”, finalizou.

Para Vanessa Sander, antropóloga e pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da UFMG, a proibição do cigarro é equivocada e acaba por fomentar o tráfico de drogas ilícitas tipo maconha, cocaína, crack ou a droga K, que é uma droga que tem aumentado muito nas prisões “porque o preso busca outras drogas para aliviar a tensão”. 

A especialista aponta que tirar o cigarro é uma decisão “deslocada da realidade do sistema prisional” e que gera um agravamento dos quadros de saúde mental dos presos. “Segundo a Sejusp, isso levaria a ausência de objetos tipo fósforo e isqueiro, o que seria uma medida que aumentaria a segurança porque esses objetos são muitas vezes usados para botar fogo em colchão e começar rebelião. Eles alegam também que os cigarros são usados como moeda de troca dentro do sistema prisional e que proibir cigarros acabaria com esse mercado ilegal lá dentro. Mas tem sido relatado por servidores e por familiares de presos que os detentos, na abstinência, têm recorrido a coisas tipo fumar página de caderno, fumar espuma de colchão, usando fiação elétrica para acender os cigarros. É uma coisa absolutamente arriscada e que causa mais problema do que resolve, né? Fora que esse mercado ilegal não acabou. Outras coisas viram facilmente moedas de troca, tipo comida, tipo os itens de higiene que a família manda, e aí o cigarro passa a ser um bem com mais valor ainda dentro desse mercado ilegal”, avaliou.

Vanessa Sander reproduziu relatos de familiares de presos que o cenário atual aponta para detentos com insônia, ansiedade, perda de apetite, tremedeira e estresse, o que tem aumentado as brigas. Ela também criticou o fato de o governo não apresentar os dados de presos fumantes no sistema prisional e o contrassenso resolver a dependência com abstinência forçada.

Fonte: O Tempo