PF faz operação contra Digimais, banco de Edir Macedo, e bloqueia R$ 670 milhões

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A Polícia Federal (PF) desencadeou nesta terça-feira (23/6) uma operação que investiga crimes contra o sistema financeiro. O alvo é o Digimais, do bispo Edir Macedo, fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A suspeita é de que o banco tenha usado fundos de investimentos para maquiar um rombo bilionário.

Há mandados de busca e apreensão contra dirigentes da instituição bancária, como o bispo João Urbaneja e seu filho, Thiago Urbaneja, além de Marcelo de Lima Brasil, João Alves de Campos e Rodrigo Ruggero. Edir Macedo não foi alvo de buscas por morar fora do Brasil.

A PF ainda cumpre buscas em endereços de José Roberto Giancoli Filho e Rodrigo Balassiano, donos da ID, gestora dos fundos do Digimais. Eles são suspeitos de ajudar na maquiagem contábil do banco de Edir Macedo.

Mais de 50 policiais federais foram às ruas para cumprir nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo.

A decisão judicial também autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados, além do sequestro e o bloqueio de bens e valores de até R$ 670 milhões.

A investigação se baseiam em relatórios do Banco Central (BC). Eles indicam que os envolvidos manipularam demonstrativos contábeis e registros regulatórios para esconder a verdadeira situação financeira do banco. 

“Essas ações visaram parecer solvente perante os órgãos de controle e facilitar operações financeiras supostamente irregulares”, diz a PF em nota.

Os investigados podem ser responsabilizados criminalmente por gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrações financeiras e operações de crédito proibidas.

Fundos de investimentos usados para maquiar prejuízos multimilionários

Fundado em 1981 como Banco Renner no Rio Grande do Sul, a instituição adotou o nome atual em 2020, quando Edir Macedo adquiriu 100% de suas ações.

Desde que o fundador da IURD assumiu o controle, a instituição passou a dar sucessivos prejuízos, chegando a um rombo projetado de R$ 8,5 bilhões.

A PF afirma que após Edir Macedo assumir o controle do banco, ele passou a focar em crédito consignado e financiamento de veículos.

Houve, segundo a investigação, um breve período de crescimento e depois uma “severa” deterioração, com prejuízos expressivos.

Entre 2023 e 2024, então, o banco passou a emitir Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas superiores a 110% do CDI – assim como fazia o Banco Master, de Daniel Vorcaro, que acabou liquidado pelo BC.

Segundo a PF, a emissão dos CDBs atrelada à “posterior decretação de liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025, evidenciou uma exposição de aproximadamente R$ 600 milhões do Banco Digimais a carteiras de crédito da instituição”.

De acordo com investigadores, o banco passou a fazer “sistemática superavaliação de ativos inseridos nos fundos administrados pela corretora ID.

Essa manobra, de acordo com a PF, teve o “o escopo de inflar artificialmente o patrimônio do Banco Digimais para viabilizar a emissão desproporcional de títulos de captação consubstancia fortes evidências da prática de gestão fraudulenta e de inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis”.

Em maio, o “Estadão” mostrou que diversos fundos de investimentos do banco haviam sido usados para maquiar prejuízos multimilionários.

Uma dessas operações foi apontada pela própria auditoria independente que o banco é obrigado a contratar para entregar suas demonstrações financeiras ao Banco Central.

A holding de Edir Macedo, que controla o banco, comprou R$ 741 milhões das cotas que o Digimais tinha em participação de um Fundo de Direitos Creditórios chamado Hermon.

O Hermon não é dono de um ativo rentável a curto prazo. O fundo comprou o direito a receber uma indenização judicial obtida por herdeiros da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia foi encampada – ou seja, teve o seu controle acionário assumido – pela ditadura de Getúlio Vargas, em 1940, no processo de criação da Vale do Rio Doce.

A Justiça Federal do Rio condenou a União a indenizar acionistas – e seus herdeiros legais – em valores atualizados equivalentes a 7 mil ações da Vale. O fundo estima ter R$ 2,2 bilhões a receber. A ação judicial é dos anos 1990 e o cálculo do pagamento gera controvérsia na Justiça, o que pode levar anos a ser resolvido.

Segundo a PF, com uso de uma longa teia de fundos da ID adquiriu esses ativos por R$ 71 milhões, mas diversas reavaliações de seu patrimônio inflaram esse valor para R$ 741 milhões.

Igreja Universal tem templos em mais de 100 países

Com 81 anos, Edir Macedo é um dos homens mais ricos do Brasil e do mundo. Ele aparece na lista da Forbes de 2026 com uma fortuna estimada em cerca de US$ 2 bilhões de dólares, o que equivale a aproximadamente R$ 10 bilhões de reais, na cotação atual. A lista da Forbes tem 71 bilionários no ranking global. 

A Universal, uma denominação religiosa neopentecostal, tem templos em mais de 100 países, o que contribuiu para a influência e a estrutura financeira do grupo liderado por Edir Macedo ao longo dos últimos anos.

Macedo prega a “teologia da prosperidade”, que é a crença de que os fiéis serão recompensados com riqueza material. (Com Estadão Conteúdo/via jornal O Tempo)